terça-feira, 31 de março de 2009

Ser ou Estar: Eis a questão



É corriqueiro o senso comum confundir ser e estar. Verbos totalmente diferentes, porém muito confundíveis. Todos temos manias de sermos tudo o que pudemos, esquecendo que ser é algo que remete a natureza e estar a estado. Isto nos induz a cometer erros fatais, pois esquecemos o caráter efêmero do gênero humano, tendendo a perpetuar nossas qualidades e dar caráter finito aos nossos defeitos.
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É raro alguém dizer que é doente, porém todos dizem que são saudáveis. Um erro de interpretação que em outros níveis nos afastam do real sentimento da vida.
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Eu não sou educado. Estou educado. Isto me torna um ser em construção... e você? É ou está? Decida-se.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Vinte e três anos


Sinto minha carne vibrar,
Meu coração pulsar ao correr na Beira Mar,
O ar a entrar nos meus pulmões limpos,
O suor da minha face jovem,
Meus rijos músculos a revelar meus vinte e poucos anos.
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Essa paixão insana por aventuras de bar,
Anseia meu peito nas noitadas sem limites,
Nos becos e ruelas de Salvador, ou de onde for,
Nas andanças por outras terras.
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A excitação da vida,
A fecundidade dos pobres,
O controle da natalidade,
A grande China a engolir o mundo e a cuspir o fogo dos dragões milenares.
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A paz dos despreocupados,
O medo dos amantes,
O sexo dos marinheiros,
A curiosidade infanto-juvenil,
O desbravar dos alpinistas,
E a paixão das estórias medievais.
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Um tanto de mim em tudo,
Fecundaria o mundo com a soma dos meus espermatozóides.
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O desejo a formigar meu ventre,
Eletrizar minhas veias e músculos,
O rijo membro a despontar no mundo,
E a apontar para o saciador das minhas vontades intensas e efêmeras.
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Doando-me,
Dando tudo,
Pedaços de mim em todos que amei,
Um tanto de mim em tudo.
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Iuri Guedes (meu grande amigo)

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Dizemos

Dizemos aos confusos, "Conhece-te a ti mesmo", como se conhecer-se a si mesmo não fosse a quinta e mais difícil operação das aritméticas humanas, dizemos aos abúlicos, "Querer é poder", como se as realidades bestiais do mundo não se divertissem a inverter todos os dias a posição relativa dos verbos, dizemos aos indecisos, "Começar pelo princípio", como se esse princípio fosse a ponta sempre visível de um fio mal enrolado que bastasse puxar e ir puxando até chegarmos à outra ponta, a do fim, e como se, entre a primeira e a segunda, tivéssemos tido nas mãos uma linha lisa e contínua em que não havia sido preciso desfazer nós nem desenredar emanharados, coisa impossível de acontecer na vida dos novelos, e, se uma outra frase de efeito é permitida, nos novelos da vida.
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José Saramago

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009




"... a orquestra geme as dores

do palhaço triste e marginal ..."
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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Cântico Negro




"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
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Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
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Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
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Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
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Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
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Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!
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José Régio, pseudônimo literário de José Maria dos Reis Pereira

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009


Parando para analisar um pouquinho a minha vida cotidiana, o que engloba a vida cotidiana dos meus entes próximos também, vejo que precisamos urgentemente nos utilizar de uma boa metodologia de filtragem de “coisas” que acontecem conosco por ordem de prioridade e importância. Certa vez encontrei o “Diagrama de Pareto”. É algo bastante conhecido e que “surge exatamente como ferramenta ideal para identificar quais itens são responsáveis pela maior parcela das perdas onde quase sempre são poucas as ‘vitais’ e muitas as ‘triviais’. Então se os recursos forem concentrados na identificação das perdas “vitais”, e estas puderem ser identificadas, torna-se possível a eliminação de quase todas as perdas, deixando as “triviais” para solução posterior”. Esta é a explicação técnica para este método.
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Mas de repente me veio um insight e tentei enquadrar em meu dia-a-dia. Sabe-se que de acordo com Pareto, a relação entre os eventos se dá na proporção de 80 para 20. Percebi que posso afirmar que 80% de nossos problemas causam-nos um impacto de 20%. Posso interpretar da seguinte forma: a maioria dos problemas é simples e nos causará o mínimo de impacto possível. Vivemos reclamando da demora do ônibus, da comida que não gostamos, do frio do ar condicionado, do calor do sol ao meio dia, do preço daquela garrafa de vinho, dentre outras milhares de coisas que na verdade se as analisarmos de perto descobriremos outros milhares de aspectos positivos, nos deixando claro que a grande maioria dos nossos problemas, na verdade não possuem importância de verdadeiros problemas.
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A demora do ônibus indica que tivemos SAÚDE para irmos até ao ponto, que podemos ENXERGAR a hora, que temos um relógio COMPRADO, que temos capacidade para quantificar o tempo, perceber a noção de momento, e assim por diante. Todo dia encontro um colega de trabalho reclamando do outro. Nunca encontro fazendo elogios ou tentando aprender com os erros.
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É incrível a imaturidade do ser humano quando o assunto é deixar de lado os problemas corriqueiros e entendê-los como soluções. Este também é um erro meu.
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Inacabado ... sou um ser em construção ...

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Monólogo de um Confuso



Definitivamente não me reconheço. Penso até que não me conheço. Me vejo em certas coisas meio como uma contradição, pois se não me reconheço ou conheço, não sei se realmente me vejo em algo. O caso é o seguinte: não sinto que possuo o que aparentemente é meu.
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Já te passou aquela sensação de que você não é o que parece estar sendo? Por favor, se você leu o texto anterior, não pense que estou num momento depressivo. Digamos que me encontro imerso num período reflexivo, onde os conceitos podem ser revistos, repensados ou até reconstruídos. Não estou em crise de identidade. Posso não me reconhecer ou pensar que não me conheço, mas sem dúvidas, tenho plena certeza daquilo que sou.
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O que eu quero tratar aqui é do vazio da existência. A vida tem-se tornado vazia no sentido de oferecer suporte. Tudo está na escala de cinzas. O mundo, a sociedade, as pessoas, os carros, as ruas, as paredes, o céu, enfim, tudo está ficando cinza, tudo está virando cinza. Estamos num fogaréu! Queimando feito pedaços de madeiras em tempo de São João. Estamos virando cinza. Restos daquilo que um dia teremos chamado de humanidade.
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Parece-me que tudo funciona ao contrário. Já não consigo mais aceitar que tudo tem uma razão para acontecer. Eu entendo, mas não aceito. Por isso digo que pareço que sou, mas na verdade, não sou. É uma pseudoverdade que assumiu um valor positivo por uma mera questão de sobrevivência. Me comporto de várias formas, e é nesse momento que enxergo o perigo que é a necessidade de auto-afirmação.
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Auto-afirmação é uma ação reflexiva que não serve para nada. É como estar só no meio de uma multidão. Não é suficiente se conhecer, pois se não és conhecido, de nada adiantar conjugar o verbo “ser”. De que vai adiantar? Conjugar o verbo “ser” é sinônimo de Zé Ninguém. Zé Ninguém não passa de um Zé Que Não É Alguém. Há Zés Ninguéns que são Alguéns à força, assim como há Alguéns que são Zés Ninguéns sem muito esforço. Ou seja, que diferença faz ser alguém ou não? Ela reside no prisma com que é vista. Existe uma imensa diferença entre considerar-se e ser considerado. Mas onde quero chegar? Ledo engano pensar que preciso de um objetivo para expressar-me. O pensamento não tem início, não tem meio, não tem fim. O pensamento se auto-afirma por si só, pois é a base da afirmação.
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Veja:
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Reconhecer;
Conhecer;
Ser;
Existência;
Vazio;
Reflexão;
Pensamento.
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Quando Sócrates afirmou que “só sei que nada sei”, ele apenas reconheceu que conhecia os limites do que ele era, ele sabia que era um ser cuja existência se pautava no vazio de compreender o pensamento, de refletir acerca daquilo que vivia.
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Esta foi a causa da sua morte. Morreu porque havia se auto-afirmado. Conhecer-se é o final de linha. É a última parada do ônibus da vida. Conclusão: não leia um texto procurando sentido nele. Apenas busque a razão que o levou a lê-lo. A vida é como um texto. A única diferença dela para este texto, é que não podemos lê-la várias vezes.
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Que final trágico! (risos)