segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008



Às vezes, penso em levar uma vida diferente, uma vida nova longe de tudo e de todos. Mas a incerteza e a dúvida fazem com que eu continue a viver o meu pacato destino. Tenho muito medo também de conhecer o sofrimento pelas pessoas que mais amo neste mundo. Sempre as mesmas questões, sempre o mesmo medo de vir a perder o que me custou alcançar ou de não alcançar o que me custa querer. A dúvida reside em cada pegada, mesmo que não tenha consciência disso. Queria que o mundo fosse perfeito e que nada pudesse impedir a minha a minha vida de caminhar livremente. Queria poder sair à rua sem receio de ver o sofrimento no olhar das pessoas. Sim, eu sei que muitas escondem suas angústias. Mas ao escondê-las, esquecem-se de colocar uma cortina de chumbo à sua frente... Sinto que a podridão do mundo acabará por vencer, porque o ser humano é demasiadamente sensível e fraco. A dúvida permanece e permanecerá. Queria encontrar a explicação para tanta miséria, maldade, egoísmo, dentre outros milhares de maus sentimentos que há no mundo. Mas acho que realmente, como disse Luiz Fernando Veríssimo, a explicação de tudo está na alcachofra.

A Explicação

Autor: Luís Fernando Veríssimo
Fonte:
O Estado de São Paulo, 10/08/2000

Uma vez escrevi sobre a informatização no espiritismo – tinha lido em algum lugar que os computadores substituiriam os médiuns – e, como esperava, recebi algumas cartas de protesto contra o comentário, considerado desrespeitoso.
Está certo, deve-se respeitar a crença dos outros. Talvez a descrença seja apenas uma falta de imaginação. São tantas, tão variadas e tão literariamente atraentes as explicações metafísicas sobre o que, afinal, nós estamos fazendo neste mundo e o que nos espera no outro que não crer em nada, longe de ser uma atitude racional e superior, é uma forma de burrice.
De não saber o que se está perdendo. O negócio é ser pós-moderno e desistir conscientemente do racionalismo, pois, se as explicações finais são tão impossíveis quanto as utopias – e a própria física, quanto mais descobre sobre o mundo, mais perplexa fica –, então o negócio é voltar à mágica e ao deslumbramento primitivo, que são muito mais divertidos.
É verdade que eu sempre achei a explicação de que não há explicação nenhuma, ou pelo menos nenhuma que o cérebro humano entenderia, a mais fantástica de todas, mas reconheço que é um sumidouro. Não a recomendo. Toda a força, portanto, à imaginação, a todas as escatologias, a todas as seitas e a todos os santos. Tudo se resume naquela música – ou é apenas uma frase? – do John Lennon, Whatever Gets You Through The Night. O que ajudar você a atravessar a noite, está certo. É difícil lidar com toda essa herança que a gente recebe junto com um corpo e uma mente, uma vida finita num universo infinito, sem nem um manual de instrução. No escuro, todas as respostas são válidas, todas as crenças são respeitáveis.
Eu, por exemplo, estou desenvolvendo a tese de que a explicação de tudo está na alcachofra. Ainda não sei bem onde isto vai me levar, mas sinto que estou perto de uma revelação. Deus é uma alcachofra. Quando desenvolver melhor a idéia, volto ao assunto.

2 comentários:

SR.P disse...

Deus é mais que uma alcachofra...é uma salada completa.

bju!!!

SR.P disse...
Este comentário foi removido pelo autor.